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Sindicalista acusa Rollemberg e a mulher e apresenta fluxograma da propina na Saúde

Publicado

em

Millena Lopes
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A presidente do SindSaúde, Marli Rodrigues, acusou o governador Rodrigo Rollemberg de ser o autorizador da distribuição de propinas no GDF. “Ele (Renato Santana) disse que o governador tinha autorizado. Ele (Rollemberg) autorizou”, afirmou Marli, se referindo ao vice, que teria confirmado que o governador sabia da cobrança de 10% de propina nos contratos da Fazenda. Ela também entregou um suposto fluxograma da propina na Secretaria de Saúde, entregue aos deputados, que demonstraria que os recursos seriam em parte controlados pelo governador e em outra, pela primeira-dama Márcia Rollemberg.

Segundo a sindicalista, o documento pode mudar a saúde pública de todo o País, por mostrar que o esquema chega ao Ministério da Saúde. “(O fluxograma) foi feito durante uma conversa com o ex-subsecretario Marcos Junior, que pode ser chamado para depor. Podem, inclusive, fazer exame grafotécnico. Quando chegamos no Ministério da Saúde, a história vazou e não pudemos mais continuar”, alertou.

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No início do depoimento, Marli se recusou a comentar as gravações que teria feito e entregar provas, por estarem sob investigação do Ministério Público. “Fui intimada pelo MP e pelo Ministério Público de Contas e entreguei a eles as gravações e degravações. Foram nove horas de oitivas. Todas as provas estão com eles. Eu estou proibida de falar sobre o que está lá para não atrapalhar as investigações. Vim porque tenho respeito pela Casa e pela população, mas não poderei falar sobre o que está no MP”, disse. Ela se negou a fornecer o nome dos procuradores, sob a justificativa de não atrapalhar as investigações do MP, mas prometeu apresentar dados concretos, como “84 pacientes aguardando vaga em UTI, 9 mil crianças esperando vaga para consultas na pediatria” e outras irregularidades.

“Vim responder a perguntas e ao que o meu advogado julgar que pode interferir, aí os deputados ficam à vontade”, completou, pedindo proteção pessoal.  “O governador tem por estilo perseguir. Persegue o povo, derruba suas casas, persegue o servidor, o sindicalista envolvido no processo. Em atitude covarde, persegue os sindicalistas. Vim aqui pedir segurança e coloco na conta do governador qualquer mal que aconteça a mim e aos meus nove filhos, nove genros e 18 netos. Ele é uma pessoa vingativa”, disse, ressaltando que não aceita intimidação.

A recusa em entregar informações, no início do depoimento, causou forte reação dos distritais. O presidente da CPI, deputado Wellington Luiz (PMDB), foi enfático. “Isso não é cabível. Lá é uma investigação, aqui é outra. Não cabe ao MP determinar sigilo. Só pode ser recusado por ordem judicial. A senhora está na condição de testemunha, não de investigado. Na condição de investigado, a senhora teria o direito ficar em silêncio”, disparou, sugerindo que ela consultasse os advogados para orientá-la. “Com relação ao que a senhora diz sobre a condição de penúria da saúde, nós já conhecemos. A senhora está vindo aqui trazer denúncias concretas de um suposto esquema de corrupção, não do estado lastimável da saúde”, reclamou.

O deputado Lira (PHS) foi ainda mais duro.  “A senhora tem obrigação de mostrar as provas aos deputados. A senhora viu alguém recebendo dinheiro? Tem provas concretas? Aqui não é botequim. Aqui é uma casa de leis”, disparou Lira, que ainda perguntou a ela se o fato de ser contrária à implementação das Organizações Sociais (OSs) teria motivado as denúncias, numa tentativa de desqualificar o governo. Marli Rodrigues negou. “Sou contra sim e todo mundo sabe, mas disse que uma coisa não tem link com a outra”, rebateu. “Quando começamos a investigar, foi para encontrar uma coisa e encontramos várias”, emendou.

Rogaciano José/Divulgação

Rogaciano José/Divulgação

Aos poucos, Marli detalhou as denúncias, afirmando que as provas estão no MP, citando o documento de empenho dos marca-passos, que foi rasgado, e compras irregulares para o Samu, como testes de gravidez para ambulâncias. Ela também mostrou um contrato de R$ 12 milhões firmado com uma empresa para manutenção de carros. “Não tem nenhuma forma de gerenciá-lo. A empresa seria a Ticketcar e ela afirmou que com os R$ 12 milhões (destinados apenas para) manutenção de pouco mais de cem carros daria para comprar 400 carros populares”, denunciou. Em lágrimas, a sindicalista ainda comentou sobre os pacientes da rede pública. “Os trabalhadores da saúde bebem a água da aflição e comem o pão da angústia”, emocionou-se.

Antes da fala de Marli Rodrigues, dois deputados, supostamente beneficiados pelo esquema de propina, se manifestaram. Defendendo uma sessão aberta, o deputado Robério Negreiros (PSDB) revelou ter sido surpreendido “pela informação de um blog de que haveria citação ao seu nome em um áudio”, mas garantiu estar tranquilo. “Nunca sentei com um secretário de Saúde desta legislatura”, afirmou. Já Cristiano Araújo (PSD) disse que não se opunha à abertura do depoimento, antecipando sua defesa.

De motorista a subsecretário

Por volta das 12h20, após Marli se emocionar, a sessão foi suspensa a pedido da depoente. Os deputados, no intervalo, aprovaram requerimento para que a Polícia Civil do DF ofereça proteção policial para ela e sua família. Segundo a Secretária de Segurança Pública, Márcia Alencar, o pedido de proteção feito por Marli Rodrigues será analisado pela Secretaria de Justiça e Cidadania.

Na pausa, o deputado Bispo Renato Andrade (PR), membro da CPI e do bloco de oposição a Rollemberg, comentou as denúncias feitas.

“A situação é extremamente grave. Ela cita nominalmente o governador. O organograma leva a essa situação”, disse, pregando cautela. “É tão grave envolver um governador de estado numa situação dessas que nós temos que ter prudência, mas sem deixar de ir a fundo nesta investigação”, avaliou.

Ele disse que todas as pessoas citadas serão ouvidas. “É uma questão grave, que envolve pessoas que estão hoje no serviço público e teriam sido indicadas pelo governador Rodrigo Rollemberg”, completou, lembrando que o governador não pode ser convocado, mas que ele pode ir à Casa voluntariamente prestar esclarecimentos.

Sobre Márcia Rollemberg, o deputado disse que vai buscar mais esclarecimentos na volta do depoimento, já que Marli afirmou que ela comanda a pasta.

“Um dos nomes, por exemplo, Marcelo Nóbrega, que foi o DAG (Diretor Geral de Administração), o coração de uma secretaria, era motorista dela (Márcia Rollemberg). Com todo respeito à profissão, como um motorista sem qualificação nenhuma vai exercer um DAG, que precisa ser extremamente técnica e capacitada? É uma das questões que vamos fazer. De motorista a subsecretário de estado? É algo difícil de uma explicação”, acrescentou.

Nóbrega seria o principal autorizador de despesas da Saúde, inclusive com mais poderes que o secretário, o que deixou o deputado indignado. “É preocupante. Por que ele foi colocado lá? Pela capacidade técnica ou para gerenciar as propinas que estão propagadas? Seria o comandante da operacionalização da distribuição de propinas? Porque competência técnica ele não tinha. Ele estava a mando de quem?”, completou. “Tenho certeza que isso vai chegar em cheio, como uma bomba atômica, junto ao governador do DF”, disse.

Ele também defendeu que a Polícia Federal entre nas investigações. “(O depoimento) não cita apenas o governador. Cita o Sady (Carnot Falcão Filho), que foi do Ministério da Saúde (ele foi diretor executivo do Fundo Nacional de Saúde). Logicamente a PF vai ter que entrar no caso, a Câmara dos Deputados e o Senado. A resposta, agora, é dos nossos senadores e da maioria dos nossos deputados federais, que se omitiram até agora. Que não se omitam mais. Há a questão dos marcapassos que não foram comprados, a questão do PET Scan que não foi instalado… As pessoas que estão morrendo nas filas dos hospitais… E o dinheiro que está sendo enviado pelo Governo Federal e o nosso está sendo usado para propina, para matar mais pessoas. Espero que a PF entre com força total, porque ela tem credibilidade para nos ajudar nesta investigação”, completou.

Desqualificação e explicações

Na volta do depoimento, às 13h, o companheiro de partido do governador, o deputado Roosevelt Vilela (PSB) tentou desqualificar o depoimento da presidente do Sindsaúde-DF. Ele acusou Marli de nunca ter se preocupado, de fato, com a saúde pública. “Você sempre esteve preocupada com o poder”, esbravejou. Ele se exaltou ao se dirigir à sindicalista e foi interrompido pelo presidente do colegiado, deputado Wellington Luiz (PMDB), que pediu respeito à Casa e à depoente.

Também depois do intervalo, a Secretaria de Saúde se manifestou sobre alguns pontos tratados nos depoimentos. Na questão dos marcapassos, a pasta afirmou ter empenhado R$ 841.555,64 para empresa Medtronic, para a aquisição de 200 aparelhos (R$ 532.975,50), e materiais como geradores, eletrodos e conjuntos de introdutor para eletrodos, sendo a única ata vigente a 372/2014. “Tivemos outras duas atas (274 e 288/2014) abertas, mas não estão mais vigentes. A 288 nem foi empenhada, porque não tínhamos recurso para comprar o material”, diz o esclarecimento.

Sobre os testes de dengue, a pasta afirma que abriu duas atas para aquisição de kits de dengue, uma em fevereiro, com 6 mil unidades a R$ 9,30 (valor unitário), gerando um empenho de R$ 55.800,00. A outra foi em março, com 6,5 mil unidades, a R$ 9,30 o preço unitário, gerando um empenho de R$ 60.450,00. “Neste momento, tramita uma nova ata para compra de mais 40 mil testes, a R$ 8,48 (unidade), totalizando R$ 339.200,00”.

Na saída do depoimento, Marli Rodrigues reafirmou aos jornalistas que o organograma foi desenhado pelo subsecretário Marcos Júnior. “Por nós, foi investigado e apresentado na Câmara. Eu trouxe também contratos da Ticketcar, de manutenção, que levanta muitas suspeitas. Demos a nossa contribuição e as provas que tínhamos ao MP, ao Ministério Público de Contas e à Câmara Legislativa”, disse, esquivando-se de acusar o governador Rodrigo Rollemberg e a primeira-dama, Márcia Rollemberg, de ganhos ilícitos com op esquema denunciado. “Quem tem de dizer isso é a CPI, não eu”.

Presidente da CPI contesta secretária

Ao fim do depoimento, Marli Rodrigues deixou a Câmara sob a proteção de seguranças. Segundo o presidente da CPI, o fato de a secretária de Segurança Pública, Márcia Alencar, dizer que o pedido de proteção feito por ela será analisado pela pasta mostra o despreparo da titular.

“Não cabe à secretária fazer esta análise. Cabe a ela se informar melhor e isso mostra que ela não tem compromisso nem com a segurança, nem com o DF. Os parlamentares têm este poder, e nós já solicitamos. Se ela se negar, caso aconteça alguma coisa, ela demonstra mais uma vez a sua incompetência e vai negligenciar com uma segurança que é extremamente importante”, acrescentou Wellington Luiz.

Os deputados já convocaram alguns dos citados no fluxograma para depor. Além de Marcos Junior, ex-subsecretário e o que seria o autor do fluxograma, foram chamados Fabio Gondim, Marcelo Nóbrega e Ivan Castelli, supostos envolvidos no esquema. Também será ouvido Caio Barbieri, que teria sido citado em um dos áudios. Os deputados não marcaram data para as oitivas.

Outro parlamentar que comentou o depoimento foi Cristiano Araújo, apontado no fluxograma como um dos beneficiários do esquema. “Não conheço o senhor Marcos Junior, nunca estive com ele e com o Fábio Gondim. É um organograma apócrifo e vou aguardar com tranquilidade ele vir aqui explicar. Não tenho relações políticas com esse pessoal que está aí e nem relações pessoais com este pessoal que criou o organograma. Vamos aguardar”, concluiu.

Defesa

Em entrevista ao Jornal de Brasília, o governador Rodrigo Rollemberg negou que Marcelo Nóbrega tenha sido motorista da primeira-dama Márcia Rollemberg.  “Ele é economista, profissional altamente qualificado e está mexendo em contratos que não eram licitados há anos, como vigilância e alimentação. Por isso vem sendo atacado”, pontuou o governador, que ainda classificou como espuma as denúncias da sindicalista Marli Rodrigues.

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